O Processo de um Filme.

Aos que visitam o blog pela 1ª vez, recomendamos que leiam primeiro os posts mais antigos, para compreender melhor o que estamos fazendo. Para isso basta descer nesta página e clicar em POSTAGENS MAIS ANTIGAS. Sejam bem vindos.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

em dia de bebedeira- 3:37 da madrugada

E hoje eu nem lembrava

Retiro-me da sala
censuro-me ao cantar
aí,
nem sou mais eu
aí,
nem sei mais ser
eu
que seja
e deseja
um lugar na sala
não mais

segunda-feira, 12 de julho de 2010

para inspirar nossa Travessia:


eu romperei todos os nãos que existem dentro de mim, provarei a mim mesma que nada há a temer, erguerei dentro de mim o que sou um dia, eu serei forte como a alma de um animal e quando eu falar serão palavras não pensadas e lentas, não levemente sentidas não cheias de vontade de humanidade, não o passado corroendo o futuro! O que eu disser soará fatal e inteiro! Não haverá nenhum espaço dentro de mim para eu saber que existe o tempo, os homens, as dimensões, não haverá espaço dentro de mim para notar sequer que estarei criando instante por instante, não instante por instante: sempre fundido, porque então viverei, só então viverei maior do que na infância, serei brutal e malfeita como uma pedra, serei leve e vaga como o que se sente e não se entende, me ultrapassarei em ondas, ah, Deus, e que tudo venha e caia sobre mim, até a incompreensão de mim mesma em certos momentos brancos porque basta me cumprir e então nada impedirá meu caminho até a morte-sem-medo, de qualquer luta ou descanso me levantarei forte e bela como um cavalo novo.

Perto do Coração Selvagem - Clarice Lispector

sábado, 10 de julho de 2010

terça-feira, 6 de julho de 2010

Festa!!


agora que a travessia se aproxima precipíciamente (inventei), eu me sinto como no filme da alice no país das maravilhas (neste último, 3d, chato) numa cena em que ela está achando impossível matar o monstro fodão, e o gato (sábio que ele é) fala pra ela assim: você não achava impossível um lugar em que os bichos, as flores, falam? você não achava impossível comer um biscoito e diminuir de tamanho? você não achava impossível uma rainha com um exército de baralho existir? você não achava impossível um gato que ri e desaparece? um chapeleiro que tem um coelho atrasado e um rato bêbado como amigos? sim, ela achava tudo isso absolutamente i m p o s s í v e l .
então. eu achava impossível uma viagem com os meus amigos pelo sertão desse brasil que fosse um road movie.
e agora, eis que ela se aproxima, de maneira precipício. prende a respiração e pula. não tem impossível. tem vontade. tem paixão. isso tudo tem aqui.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Piratas

"(...) Vamos agora ao que nos ensina a palavra experiência. A palavra experiência vem do latim experiri, provar (experimentar). A experiência é em primeiro lugar um encontro ou uma relação com algo que se experimenta, que se prova. O radical é periri, que se encontra também em periculum, perigo. A raiz indo-européia é per, com a qual se relaciona antes de tudo a ideia de travessia, e secundariamente a idéia de prova. Em grego há numerosos derivados dessa raiz que maracam a travessia, o percorrido, a passagem (...). Em nossas línguas há uma bela palavra que tem esse per grego de travessia: a palavra peiratês, pirata. O sujeito da experiência tem algo desse ser fascinante que se expõe atravessando um espaço indeterminado e perigoso, pondo-se nele à prova e buscando nele sua oportunidade, sua ocasião. A palavra experiência tem o ex de exterior, de estrangeiro, de exílio, de estranho e também o ex de existência. (...) Tanto nas línguas germânicas como nas latinas, a palavra experiência contém inseparavelmente a dimensão de travessia e perigo (...)."

Por Jorge Larrosa Bondía in NOTAS SOBRE A EXPERIÊNCIA E O SABER DA EXPERIÊNCIA. Revista Brasileira de Educação, jan-abr, número 019; 2002.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Aprendendo a viver

"Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não sei.
Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho, por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo o que é meu, e confiaria o futuro ao futuro.
"Se eu fosse eu" parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova do desconhecido. No entanto tenho a intuição de que, passadas as primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teríamos enfim a experiência do mundo. Bem sei, experimentaríamos enfim em pleno a dor do mundo. E a nossa dor, aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar ."

Do Aprendendo a viver da Clarice.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

dos outros (Adelita e Sofia)

Externa - campo aberto
o gramado está disforme, encoberto por ramos de folhas secas.

Adelita está procurando alguma coisa que perdeu. Sua expressão traduz o cansaço de quem, por horas, busca em vão por algo importante. Tateia a grama com os pés, joga as folhas secas pro alto na esperança de encontrar debaixo daquilo tudo.
Ela olha bruscamente para o horizonte; as luzes estão morrendo. Um pranto silencioso escorre pelo seu corpo. Relutante, começa a dar passos largos pelo campo, no impulso de correr desvairadamente.
A câmera descobre Sofia. Atônita. Sentada num canto, observando Adelita de longe. O corpo hesita em levantar, receoso. Os olhos fixos no campo e em Adelita.

corta: Chave do motorhome no contato. Uma mão a gira.

volta: Sofia olha pra trás e vê todos entrando no motorhome prontos pra seguir viagem.
Volta-se para Adelita, um segundo de silêncio que lhe paralisa.
Dispara em sua direção.

(Sofia) - Vem, vem, Adelita! Vamos seguir (ainda um pouco constrangida)
Sofia freia o passo quando chega bem perto de Adelita e não diz nada. Tem vontade de voltar, quase se arrependendo de estar alí.
Adelita está de costas pra ela, ainda procurando.

(Sofia) - Desculpa...Eu sei que isso é importante pra você. Ai, como sou idiota. (voltando-se para o motorhome)

(Adelita, ainda chorosa) - Não...deixa disso... era só um presente que eu queria ter comigo! (Ela dá uma última olhada para o campo, já anoitecido e vira-se para Sofia com um olhar mais tranquilo).

(Adelita) - Bora, Bora...já é mesmo hora.


Adelita põe suas mãos sobre a cintura de Sofia e arrasta seu corpo pesado sobre ela. Sofia se desequilibra, as duas quase caem. riem. e se abraçam.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Na Cachoeira

EXT. / DIA - TRILHA NO MATO

Alex, Galo, Gongom e Sofia andam pelo mato.

SOFIA
Mas então você nunca conviveu com
ninguém a fundo fora seus pais?

ALEX (Sotaque Francês)
Pois é... Nunca antes tinha
ficado tão longe do mar... Só
conhecia cidades litorâneas...
Rio de Janeiro, Marseille,
Sydney...

GONGOM
Mas e aí, então você nunca foi
pra escola, saiu pra beber,
namorou com ninguém?

ALEX
Ah, tinha vinho no barco...

GONGOM
Hum, sei...

ALEX
É, a verdade é que careço de
experiências...

GALO
Fica tranqüilo Alexão (leia-se
Aléchão), nós vamos te propiciar
as maiores experiencias da sua
vida.

ALEX
Firmeza.

Os amigos riem e imitam ele falando.

GALO
Firrrmeza!

GONGOM
Firrrmeza!

SOFIA
Ai, que ótimo, já aprendeu.

Alex sorri e olha para frente. Eles chegaram a uma
cachoeira.
Sofia e Galo tiram as roupas e ficam pelados, Gongom fica
só com uma samba canção do Piu-Piu e Frajola. Alex tira
toda a roupa também.

GONGOM
Você não tem vergonha?

ALEX
Não, uê, vocês parecem não terrr.
Tem algum prroblema?

GALO
Problema nenhum Alexão!

ALEX
Então tá.

Por de trás do mato alguém os observa. Alex se encaminha
em direção à cachoeira, mas Sofia o detém.

SOFIA
Alex, me diz uma coisa. Você é
virgem?

Alex sorri, encabulado.

ALEX
Sim.

Galo arregala os olhos e ri sua risada estridente, Gongom
faz a sua cara de "óbvio". Sofia olha para os meninos.
Atrás do mato, alguém continua os observando.

GALO
Vamo resolver isso agora mesmo!

Sofia afaga o peito de Alex.

GONGOM
Pera aí gente, ele precisa saber
que não é bem assim.

SOFIA
Como assim?!

GALO
’Que não é bem assim’, bixo, olha
o Gongom!

GONGOM
Ué, que normalmente as pessoas
começam mais convencionalmente...

GALO
Iiiiih....

SOFIA
Ai, que careta Pedro.

GONGOM
Ah, beleza então, vocês todos
foram iniciados num bacanal!

GALO
Deixa de ser moralista Gongom!

Alex vai achando graça na coisa. Mas derrepente pede
silêncio.

ALEX
Shi!...

SOFIA
O quê?

ALEX
Vocês não ouviram?

SOFIA
Ouviram o que?

Alex vai correndo em direção do mato. Vê que alguém foge
dele por entre os capins, que vai afastando, até que
parece ter perdido o traço. Anda mais um pouco,
vagarosamente e de repente afasta um arbusto. Eliza dá um
grito de susto, o que faz Alex se afastar num passo rápido
pra trás. Ela está com a cara e o uniforme sujos te terra.
Então depois do susto, ri da nudez dele e sai correndo.
Alex dá de ombros e volta para a cachoeira, onde encontra
os amigos dando uns amassos na água.

INT. / DIA - CARRO.
Os quatro estão com os cabelos molhados dentro do carro.
Gongom dirige com uma toalha sobre o ombro. Sofia bola um
beck no banco da frente.

ALEX
Vocês não ouviram que tinha
alguém ali?

GALO
Ouvi não.

ALEX
Era uma menina. Vocês tem o
ouvido muito ruim.

SOFIA
De tanto que a gente fala.

Adiante num ponto de ônibus, alguém pede carona.

ALEX
Olha lá, é ela!

Gongom pára o carro. Galo põe a cabeça pra fora da janela.

ELIZA
(sotaque mineiro)
Tão indo pra onde?

GALO
Não sei... Tamo indo pra onde,
gente?

Sofia levanta os óculos escuros.

SOFIA
Sem destino, baby.

ELIZA
Que ótimo. Posso ir com vocês?

GONGOM
Você é maior de idade?

ELIZA
Não. Você tem medo?

SOFIA
Uuuuuh...

GALO
Hihihi!

SOFIA
Entra aí, mulher!

Dentro do carro Eliza reconhece Alex.

ELIZA
Nuh, o peladão!

Os amigos tiram um sarro do sotaque dela.

GONGOM
Nuh, me dá um queijo!

SOFIA
Nuh!

Eliza retruca.

ELIZA
Nossa, que engraçado, meu!

Todos riem.

ALEX
Como é que você chama?

ELIZA
Eliza.

ALEX
Alex.
Os dois dão um aperto de mão.

ALEX
E do que você está fugindo,
Eliza?
Eliza fica séria.

ELIZA
Tô fugindo de nada não... (pausa)
E vocês, do que tão fugindo?

SOFIA
A gente só tá viajando.

ELIZA
Eu também, uai.

Eliza então olha para fora da janela e fica pensativa,
vendo a paisagem passar.


segunda-feira, 7 de junho de 2010

Pedro Gustavo Lia

Cena escrita para os outros:

Balada

Lia com uma lata de cerveja na mão. Estática em meio a uma multidão que dança freneticamente. Não está se divertindo, visivelmete.

-Eu quero sair pra fumar.
-Vai ter que pagar a comanda pra sair.

Lia pega a fila, grande, do caixa.

Paga e sai, com a mão carimbada por um cigarro gigante.

Sai andando pela rua, descalça, cigarro e cerveja.

Anda a esmo.

Passa um carro. Gustavo e Pedro estão dentro do carro. Param na sua frente. Ela xinga. Grita: Deixe-me ir preciso andar.
Pedro coloca a cabeça pra fora da janela.

Pedro - É ela mesmo. Lia! Entra aí.
Lia - Quem é você?
Pedro - Porra, Liazona. Sou eu. Ta maluca?
Lia - Eu quem?
Pedro - O Pedro. E o Gallo ta aqui também.
Lia - Que que vocês querem?
Pedro - Entra aí logo. To parado no meio da rua.
Lia - Quero ir a pé.
Pedro - Pra onde?
Lia - Andar, sei lá.
Pedro – Vamo de carro. Chega mais rápido.
Lia – Não tem onde chegar.
Pedro – Então volta pra balada que a gente já tava chegando.
Lia – Vocês demoraram pra caralho. Eu tava lá dentro sozinha até agora. Não vou voltar nem a pau.
Pedro – Foi mal, Liazona. A gente tava enrolado no ensaio, demorou mais do que a gente achava.
Lia- Vocês me deixaram sozinha. Por duas horas. Num lugar que eu detesto.
Pedro – Cadê seu sapato?
Lia – Saí sem.
Pedro – Vamo embora então, vem.

Lia entra no carro, contrariada.

Gustavo toca uma música no violão pra alegrar a Lia. Ela chora.


Gustavo anda à esmo pela rua. De dia. Descalço. Bêbado. Violão na mão, canta desafinadamente uma música que acabou de criar. Uma música bêbada. Está só.

Vem subindo, na calçada do outro lado da rua, Isabel, rodeada de amigas mulheres. São as suas amigas do teatro. Falam, dão risada, se mexem bastante, muito animadas.

Elas param, ao perceber Gustavo do outro lado. A câmera está do lado de Gustavo, e ao fundo, desfocadas, aparecem Isabel e suas amigas acenando para Gustavo, que não ouve, está imerso em seus pensamentos, em sua nova música.

Isabel se separa das amigas, corre para alcançar Gustavo. Pára diante dele. Ele pára.

- Bel!!
- E aí seu maluco? Tamo ali gritando, te chamando e você nem ouviu.
- Jura? Pô, tava aqui cantando, pensando na vida, caminhando.
- Vamo com a gente

terça-feira, 1 de junho de 2010

"Mas liberdade - aposto - ainda é só alegria de um pobre caminhozinho, no dentro do ferro de grandes prisões."

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Cena para Tobias

Todos dormem. Tobias acorda. Começa a fuçar dentro das malas de todos. Encontra um batom na mala da Clarice. Passa o batom no Gongom. Na mala do Dionisio ele encontra uma pasta de dente. Desenha um coração na bochecha do Dionisio. Lê bilhetes do namorado da Bel. Coloca uma flor no cabelo dela. Pega um cigarro da mala da Sofia. Fuma. Mexe no bolso do Wagner, pega um trocado. Avista a mochila da Lia. Tira todos os seu pertences e arruma-os de uma forma peculiar. Pega um pandeiro. Coloca dentro da mochila..Sai para rua, para a madrugada, com a mochila nas costas.

Cena para Sofia

6 da manhã. Três pessoas ao longe descem uma rua comprida. Aos poucos vamos distinguindo os corpos – parecem ser 2 homens e uma 1 mulher de cabelos compridos. Os meninos se abraçam pela cintura enquanto um deles segura a menina pela mãos. Vemos apenas o vulto dessas pessoas. Um dos meninos pula nas costas do outro, que quase cai. Os três riem. Os meninos se beijam. Pela claridade do dia, enxergamos os corpos – que antes eram apenas vultos. Sofia era o menino que pulou nas costas do outro. Agora os três estão de mãos dadas, e andam rindo, tropeçando e acariciando um ao outro. O menino e a menina se beijam, Sofia anda um pouco na frente, estão em direção da casa dela. Chegam na porta do prédio. Os três se abraçam.
Sofia tenta entrar no prédio, eles a seguem e ela diz:
- Acho que eu quero dormir sozinha.
Os três se olham, ficam em silêncio.
Sofia diz:
- Acho não. Eu quero.
E entra rápido. Os dois seguem andando e rindo pela rua.


Na entrada do seu apartamento Sofia encontra um quadro embrulhado. Ela pega o quadro e segue em direção ao quarto. Wagner está dormindo. Ela senta na cama. Abre o quadro, é um quadro azul com o rosto de um homem. Ela olha para a cama novamente. Wagner não está. Sofia chora. Coloca o quadro do lado dela e deita. Pega um laptop. Abre o computador. O fundo de tela é uma foto bonita dela e do Wagner. Ela entra no seu blog e escreve um texto sobre isso ("Embasbaque")

sobre FILMES DE ESTRADA II

Iracema: uma Transamazônica.

O filme de estrada é uma ferramenta de mapeação dos espaços.
Nele se encontra o desejo de registrar determinado espaço - país, localidade - em transformação.
Registrar essa passagem. Geralmente com um senso crítico muito forte, e talvez por isso mesmo um tanto nostálgico. A modernização enquanto elemento descaracterizador das culturas.

Bye-Bye Brasil.

E agora?
E hoje?

Copa do Mundo.
Olimpíada.
Brasil, país do futuro?

Isso me vem à cabeça. E penso, se nosso filme fosse feito durante a copa, seria um outro filme: a celebração ou frustração registrada enquanto rito futebolístico.

É hexa!

Sobre FILMES DE ESTRADA I

Walter Salles diz que o filme de estrada está na origem do cinema; isto é, dos documentaristas que viajavam para recantos "desconhecidos", com o intuito de fazê-los fotografáveis. Há um ímpeto imperialista nisso. Há uma visão etnocêntrica também.
Hoje, com o mapeamento quase que absoluto de todos os espaços e cantinhos do planeta, via GoogleMaps, via câmera digital de celular, há um esvaziamento desse sentido.
O Mundo - de Jia Zanghke - é o paradigma dessa condição: a supressão dos espaços.
No mais, é preciso viver as coisas na primeira pessoa, como ele afirmou. Ou seja, é preciso reafirmar uma subjetividade. Alguém que vê as coisas, e o interesse que esse olhar pode despertar.

Win Wenders afirma que a origem do filme de estrada se encontra nas primeiras pinturas rupestres. O que não deixa de ser uma afirmação de que está na origem do cinema também, ainda que mais auto-valorativo que a posição do Waltinho.

Easy Rider, e o próprio filme Diários de Motocicleta, se encontram na linhagem dos filmes em que o que está em jogo são os conceitos de liberdade e identidade. Nosso filme, por hora, é herdeiro dessa tradição.
Na outra ponta, e mais contemporaneamente, temos os filmes de Jia Zanghke e outros, em que o movimento das pessoas se dá por razões econômicas e políticas, num movimento de perda da identidade.
Viajo Porque Preciso é um misto dessas duas posições.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Apresentação Dionísio Paixão

Apresentação Dionísio Paixão.

Interna. Boteco – Começo de noite.

Pequeno boteco em algum lugar do sul da Bahia. Não há ninguém além de Dionísio e seu Messias - o dono do bar.

Dionísio está com o antebraço direito apoiado no balcão e as pernas cruzadas.

Dionísio: Vai Seu Messias, já que não tem fernê me vê uma pinga e um café. O café pra acordar. E a pinga... Pra acordar mais ainda! Rará

Messias coloca o café e a dose de pinga sobre o balcão. Dionísio vira o café no copo de cachaça e manda 2/3 pra dentro num só gole.

Dionísio: Aaahhh... mmm... Ô Seu Messias, você sabia que a palavra SABOR e a palavra SABER têm a mesma origem etimológica?

Seu Messias faz que não entende, mas demonstra interesse.

Dionísio: Pois é Seu Messias, a MORNOdenidade ainda não entendeu isso . Informação por informação é ração Seu Messias! Isso aqui ó (ergue o copo) é conhecimento! (Vira o restante do café destilado). Rará.. Agora o senhor me dá licença, Seu Messias, que os libertinos da madrugada me aguardam para saborear o arco da lua.

Dionísio puxa o violão que estava apoiado do lado de dentro do balcão e sai cantando:

Dionísio: “Quem me vê de manhã pensa que eu vou trabalhar, quem me vê de manhã pensa que eu vou trabalhar, eu vou pra casa descansar, porque eu passo a noite inteira na orgia”

Já no fim da rua, pra um que está na janela do predinho da esquina:

Dionísio: Fala Pelé! Cuidado com o Edson hein! Rará

Cena sonho Lia (CORPO)

Corpo

Interna. Quarto da Lia – Noite.

Um abajur ao lado da cama é responsável pela pouca luminosidade existente no quarto.

Lia está deitada na cama de olhos fechados. Aos poucos adentram o quarto: Tom, Guto, Gongom, Bel, Adelita, Galo, Sofia e Wagner. Todos vão se colocando ao redor da cama e aos poucos começam a tocar o corpo de Lia que permanece estática. Toques a princípio carinhosos, mas que com o passar do tempo se tornam libidinosos e quase violentos. De repente, a mesma ação, só que agora todos vestindo máscaras neutras. Lia permanece estática.

Interna. Sala da casa da Bel – Fim de tarde.

Bel e Lia estão sentadas no sofá com garrafas long neck de cerveja na mão. Depois de um silêncio e olhares cúmplices:

Bel: E aí?

Lia: E aí eu acordei (dá um gole).

Silêncio...

Lia: Que merda, né? Que grande merda fedida!

Bel: Por que “que merda”?

Lia: Ué mano. O que eu posso fazer? Escrever um poema? (Dá um longo gole).

Cena de apresentação Guto

Interna – Casa do Guto / tarde.

Vemos as costas da cabeça de Guto apoiadas no sofá e a frente a televisão. O programa é Casos de Família com Cristina Rocha. Após alguns segundos de programa a câmera faz a volta e pega Guto de frente prostrado no sofá de calça de moletom, cara amassada, sem nenhum tipo de latência ou vivacidade no rosto, completamente apático. Há um cinzeiro no braço do sofá. Essa imagem permanece por alguns segundos.

Interna – Casa de show – noite.

É show da Trupe Chá De Boldo. Momento do show no qual Guto declama ardentemente o poema:

Me queimo

Ardo

Me inflamo quando me atiro vivo em tuas veias

Seivas

Suores

Teu corpo

Um rio de fogo em que me afogo sem pedir socorro a ninguém

Tua língua

Saliva

Labareda que me percorre por dentro, por fora, à margem

Até minha carne viva encontrar a tua carne em flor

E finalmente eu for

Um rio

Um rio dentro do teu mar

Outro momento do show: Guto cantando a música Eu Não Presto: “...quando eu subo no palco eu mato a cobra e mostro o pau...” Em ambos os momentos sua sensualidade, vivacidade, tesão e liberdade sobre o palco fica explícito. (não pensei na edição para que não precise mostrar os dois momentos inteiros, acho que era legal intercalar com as pessoas dançando na pista também, o barulho e o escuro da balada, sei lá...).

Interna – Casa do Guto / madrugada

Vemos Guto prostrado no sofá. Com uma mão zapeia os canais da televisão (além da imagem isso fica claro com o áudio) e com a outra fuma. A cena permanece por segundos.

Interna / Quarto do Guto / manhã

Guto, acelerado, ansioso, com o coração batendo de pressa colocando as últimas coisas na mala. Foco para última coisa que é o figurino do personagem Tobias. Já pronto liga para o Tom:

Zezé!

Zezé é hoje!

E hoje é só o começo!

To lógico. Eu vou pegar a Bijou, a Lia, o Galo e a Bel e logo mais tamo aí Muteminhaaa!

Sabe que eu queria saber? (procurando uma caneta) Como é exatamente a frase do Guimarães?

Vemos Guto escrevendo na parede de seu quarto: “Vida devia ser como na sala do teatro, cada um inteiro, fazendo com forte gosto seu papel, desempenho. Era o que eu acho, é o que eu achava.”.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

CENA TOM, por gongom

Dentro do trailer, Bem de noite.

Motor ligado, vento. Tudo está escuro, flashs de farol dos outros carros machucam a vista e iluminam intercaladamente. Frio, aquele frio de estrada, nos ossos. Cheiro de cigarro.

Tom, no banco do carona, procura ansiosamente alguma coisa pra comer, revirando uma caixa de papelão e fazendo muito barulho com os saquinhos de supermercado dentro dela. Ouve-se um “shhhhh”.
Guto dirige e fuma em silêncio.
Na parte de trás estão todos quase-dormindo amontoados. Bocejos e viradas de lado.

Tom acha um pacote de passatempo aberto e começa a comer devagar, olhando fixo pra frente, como se não estivesse vendo nada.

Preocupadão.

Três bolachas depois, ele amarra o pacote e guarda, ainda olhando pro mesmo nada, pensativo:
TOM: Guto, falta muito?

Primeira cena, Gongom.

(Padaria de bairro antiga (não essas novas com cara de shopping). Pedro está de óculos escuros sentado no balcão tomando um café num copo americano. Visivelmente no bira, ele esfrega as mãos na cara e despenteia ainda mais o cabelo armado. Cansaço e suspiros).

PEDRO: Opa! Me dá um misto, por favor?

Chapeiro: Quente?

PEDRO: Quê?

Chapeiro: Quente ou frio?

PEDRO: Ah, quente.

(Miguel senta no lugar ao lado):

MIGUEL: Peguei um chocomilquinho, ó. (mostrando a garrafinha).

(Silêncio)

(chega o misto, pedro tira o óculos, mastiga devagar com os olhos fechados e fala com a boca cheia)

PEDRO: A gente não devia ter emendado, que idéia imbecil. Que horas são heim? (olha no celular) Fodeu, a gente tá muito atrasado. Vamo aí.

(deixa metade do misto)

Do lado de fora da padaria, na alvorada do dia, eles se agasalham, colocam os óculos escuros e abrem a porta de um trailer mal estacionado com as rodas em cima da guia:

PEDRO: Vamo aí.

(Entram).
SEREINHA E CLARICE
Sereinha de camisetão preto na água cantarola Opus 9 n2 In
E-Flat, de Chopin, sozinha olhando o céu, girando e
dançando...
SEREINHA
(cantando)
Clarice a flagra, aproxima-se devagar até sentar-se na
margem.
SEREINHA
É uma música nova, foi a Alice que
me ensinou, ela disse que novos
lugares merecem novas músicas. Aí
gostei dessa, acho que as sereias
gostam dessa.
Clarice ainda a observa, não demonstra nada, apenas a olha.
SEREINHA
Se você falasse, eu te ensinava,
pena que você não fala...
Sereinha volta a cantar e esquece de Clarice por um tempo.
CLARICE
Ei, Sereinha.
Sereinha pára a cantoria e a olha um pouco espantada, mas
sorri logo em seguida.
SEREINHA
E fala, é?
CLARICE
Claro que falo. Me ensina essa
música?
Sereinha começa a ensinar Clarice, elas cantam juntas dentro
d´água a primeira parte. Clarice vai dizer alguma coisa, mas
retrae-se. Quase sorri. Mas não sorri, sai da água muda e
vai embora.
SEREINHA
Tá maluca é?
(...)
SEREINHA
Eu heim... cada um que a gente
encontra...
2.
Sereinha volta a dançar, girar e olhar o céu, cantarolando a
mesma música.

Lia pra Lia

Lia ao telefone.
-Oi Gongão, foi você que me trouxe?
-Não???
-Ah, nada não... só queria tirar uma dúvida, então tá, a gente se vê mais tarde.
-Beijo.

Lia na Cinemateca, pergunta ao moço da portaria.
-Oi, acharam uma mochila ano retrasado, em setembro mais ou menos?
-Olha, isso já faz muito tempo, não acha não? Com certeza a mochila não está aqui, se a achamos, já deve ter tido um outro destino.
-Nossa, eu preciso tanto dela, preciso pra ir viajar...
-Mas moça, você já está sem ela faz mais de um ano e meio!
-Pois é, é esquisito, mas preciso dela pra ir viajar mesmo, senão não dá.
-Ó, eu sinto muito moça, mas acho que não vou poder ajudar, faz muito tempo mesmo.

Lia no posto de gasolina da Cena Madureira, mesmas perguntas , mesmas respostas.

Lia no Empurra-empurra (monumento), Guto aparece:
-Desencana Liazona, vai sem ela.
-Não dá, Guteba, não consigo.
-Tá com medo de quê? Tem um monte de mochila que vai com a gente.
-Eu preciso guardar certas coisas que não cabem no bolso, as coisas que não cabem em mim...guardar na mochila, pra dar uma divididinha, sabe? A vergonha por exemplo, imagina ela toda só comigo...
-Puta Liazona, você não precisa de uma mochila. Deixa tudo aqui, ou quase tudo... é mais fácil sem tanta coisa pra carregar.
-Será?
-Sim, vai indo pros lados de casa que eu vou buscar a Bijourica. E olha a chuva heim, num tem um guarda-chuva no seu bolso, não, Bichinho?
-Pó deixa, eu amo a chuva.
-Vamo ATRAVESSAR, Liazona!

Lia tira do bolso um texto xerocado, dois maços de cigarro vazios, uns papéis, procura um lixo e vai embora sorrindo.

Cena para Wagner, da Lia

Wagner na Praça da Sé olhando a saída do metrô, sentado.
Olha o céu, olha o chão, olha o céu de novo e força os olhos. Braços e mãos um pouco sujos de tinta amarela, vermelha, laranja e verde.
Um cachorro aproxima-se , Wagner esfrega as mãos, cai um pouco da tinta seca, então ele afaga o cachorro por algum tempo.
Wagner levanta-se, olha o marco zero, vai até o bar e pede uma água. Volta para o lugar inicial. Senta-se, o cachorro reaproxima-se.
-Será que você quer um pouco?- Olhando o cachorro- Eu tenho muita sede, sempre. –Sorri, aí fica sério- Principalmente quando estou ansioso.
Olha pro céu. Ouve um grito conhecido e volta o olhar para sua direção, a saída do metrô.
- E aí Waginão.
Guto e Adelita se aproximam sorrindo. Lia, Sofia, Isabel e Gongom também chegam em seguida. (vê-se a cabeça dos quatro aparecendo nas escadas rolantes)
Então é a vez de Tom e Galo juntarem-se ao grupo.
Todos se abraçam, beijam fazem festa uns para os outros e comentam que estão com muita sede. Decidem juntos ir ao bar comprar algo para beber.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Viajo porque quero, volto porque preciso

- Ou Viajo porque preciso, volto porque preciso; ou Viajo porque quero, volto porque quero.


Ontem, domingo 09 de maio, vários de nós do Travessia fomos ver Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo.

Opiniões divergentes à parte, o filme de Karim Aïnouz e Marcelo Gomes suscitou diversas questões que se relacionam com o nosso.

'Viajo porque preciso'. À primeira vista, ao menos para mim, tal sentença remetia ao viajar como um necessidade em si. O que vemos no filme no entanto é que a frase está mais relacionada, ao menos em sua origem caminhoneira, à viagem como uma obrigação profissional. É claro que no final das contas o título pressupõe uma certa ambiguidade: precisar para trabalhar, mas para mudar, para esquecer, para se encontrar. Título muito feliz.

E porque nós viajamos então? A princípio pela aventura, porque queremos, queremos outros mundos, outros ares, outras pessoas. Eis minha resposta automática: viajo porque quero. Mas, parando para pensar um pouco, porque voltamos? Não seriam os motivos que nos fazem viajar suficientes para não voltarmos? Em outras palavras: o que nos prende à São Paulo com tanta força que nos leva a ir já pensando na volta? Nossas vidas estão aqui. Sim, mas não é justamente as rudezas desta vida que nos levam a precisar viajar?

Viajo porque preciso. Preciso descansar, descansar para poder continuar a viver no ritmo que a cidade exige. Seria então a minha necessidade de aventura uma vontade programada para dar conta de uma vida desgastante?

Viajaremos. Porque precisamos e queremos. Talvez nem todos voltem. Talvez muito de São Paulo que está em nós viaje com a gente.

Este post acabou por ganhar um tom muito pessoal, por isso convido à todos a pensarem e escreverem aqui sobre essas questões.


***


Uma outra questão que o filme de Aïnouz e Gomes me levou a pensar (sempre em contraponto ao nosso) é o da linguagem e a relação que esta promove entre o espectador, o espaço e as pessoas no filme.

De certa forma, da maneira como o filme é construído, principalmente pelas vozes over, os planos gerais, os diversos tipos de suporte (me falta palavra melhor, leia-se o digital, o super-8, as fotos...) e a ausência de ações dramáticas, leva o filme a uma espécie de registro 'lírico-reflexivo' que conduz o espectador a ver tudo o que está na tela pela mediação do protagonista e suas câmeras.

Bom, é certo que tudo o que vemos no cinema é mediado pelos seus autores e suas câmeras. Não tenho dúvidas quanto à isso. O que me incomoda no Viajo por que preciso... é que isso acaba, ao meu ver, a minar as possibilidades de que a o mundo e a vida filmada surpreendam o espectador, pois está tudo dentro do controle desta mediação, quase não há acontecimentos que fujam do olhar como objeto e este dê lugar ao que olha.

Sinto que deposito expectativas minhas quanto ao nosso filme no filme do outro, mas se há um lugar em que isso pode ser feito, o lugar é esse blog.

Haverão sim momentos 'líricos-reflexivos' no nosso Travessia, o espectador verá e ouvirá o mundo pelo ponto de vista de atores construídos a partir de imagens subjetivas / subjetivadas, pelos sons de suas vozes lendo seus diários e impressões da estrada. Mas estes momentos então darão lugar a cenas, documentais ou encenadas. O que foi então abordado com a certeza das palavras será relativizado, potencializado, problematizado, pela incerteza, complexidade e ambiguidade que só uma cena pode conter. Drama. É claro que haverá sempre a mediação, mas esta estará sujeita à surpresa do tom e da palavra de um ator, do gesto de um desconhecido, da imprevisibilidade da vida, enfim, à tudo de inesperado que uma cena, encenada ou documentada possa conter e que enriqueça um ponto de vista e suas infinitas possibilidades de interpretação.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Cena de apresentação Sofia

Cena 1

Quarto de Sofia. Música alta. Seu armário está aberto e ao redor tudo o que se vê são roupas e mais roupas espalhadas pelo quarto. Uma mala aberta no chão, completamente cheia. Sofia está desesperada. Tenta fazer mais roupas caberem na mala, tira algumas para caberem outras, mas não consegue se decidir entre aquela calça ou a outra, entre as 15 blusas que separou. Toalha, lençol, escova de dentes, shampoo, tudo isso ainda está para fora da mala. Vemos Sofia bastante irritada.

Cena 2

Sofia na madrugada. Ruas de São Paulo; vazias. Chuvisco fino e frio. Caminha rápido e fuma. Encontra Lia na esquina, de capa de chuva, também fumando, encostada num poste. A cena é soturna. Uma cena ao estilo dos filmes de mafiosos, espiões e coisas do tipo. Há um suspense no ar. É como se elas estivessem fazendo algo muito perigoso. Nas suas roupas, pequenos detalhes dão a impressão de que elas estão disfarçadas. Conversam em sussurros:

Sofia - Pegou tudo?
Lia – Tudo tudo não. E você?
Sofia – No fim, peguei só isso daqui.
Lia – Cigarro?
Sofia – E um biquíni.
Lia – Eu trouxe essa roupa no corpo, meu maço no bolso, e essa catainha aqui.
Sofia – Já ta na hora?
Lia – Quase. Faltam 5.
Sofia – E é aqui mesmo?
Lia – Ahã.

(silêncio entre elas)

Lia – Tá com medo?
Sofia – Claro que não.

(Outro silêncio entre elas)

Sofia – Chuvinha chata.
Lia – A gente vai sentir falta desse chuvisco paulista.
Sofia – Impossível.
Lia – É nada.
Sofia – Eu não quero sentir falta de nada, sabia?
Lia – E se de repente você perceber que talvez não precise voltar?
Sofia – É.
Lia – É.
Sofia – É aquele carro ali?
Lia – Só pode ser.

(o carro faz um sinal com o farol. É um código.)

Sofia – Preparada?
Lia – Não.
Sofia – Nem eu.
Lia – Vamos?
Sofia – dois e já!

Lia e Sofia saem correndo, como espiãs, terroristas, marginais fora da lei, guerrilheiras ou algo do gênero.
Alguém dentro do carro abre a porta e mal elas entram, o carro sai cantando pneus.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Cena de apresentação Adelita

Cena 1. Externa
Av.Paulista - em frente ao MASP. final de tarde, dia de semana. Movimentação de carros, pessoas, barulho, buzinas.

Ação:
Adelita está sentada numa cadeira, do outro lado da rua, com uma bandeja de prata no colo contendo 25 biscoitos da sorte sortidos em cima da bandeja. Em silêncio. Na mão esquerda segura 25 bexigas de gás hélio, brancas. No chão, ao redor da sua cadeira, formando um círculo está escrito em giz : "Tudo está dentro dos biscoitos da sorte. Sirvam-se".
A carta de despedida do pai é o contéudo dos biscoitos da sorte. A cada pessoa que passa por ela e pega o biscoito, uma bexiga voa pela cidade. A câmera pega a reação das pessoas lendo o conteúdo dos biscoitos, mãos puxando o papelzinho. A câmera foca a rua, os passantes, eu na situação. Todos os atores passarão pela Paulista e pegarão o biscoito. a Lia atravessa a rua com a Sofia e pega. O Galo e a Papi de mãos dadas pegam dois. A Bel desce do busão e pega um. O Wagner, o Gongom e o Tom passam sozinhos, rapidamente. Quando sobrar apenas uma bexiga e um biscoito da sorte, Adelita se levanta e com a bexiga e o biscoito na mão caminha até a porta do Hospital 9 de julho. Deixa um biscoito na porta do hospital. Guto aparece do outro lado da rua. Se olham. O sinal fecha. Atravessam. Se beijam. A última bexiga voa pela cidade. Sinal abre. Eles continuam se beijando em meio as buzinas e carros. Close na bexiga voando.

Texto em off para a ação acima:
"Então, para suportar isso tudo, eu pensei numa performance que conta com a sorte. Ou com o azar. Que conta com o acaso, com a surpresa, com o inevitável, com a dúvida. Com aquele momento que a gente não sabe o que fazer e pede ajuda aos astros, aos búzios, as cartas, ao I Ching, a Clarice, ao Pessoa, aos mestres, antepassados, amigos e inimigos. Aos deuses e demônios. A gente conta até com a sorte dentro dos biscoitos. Qualquer ajuda é bem vinda. Nenhuma funciona. Foi no dia 07 de dezembro de 2009. Eu entrei no hospital aquele dia e ele disse: - Escrevi uma carta. Leia em voz alta, filha.
Antes de ler já soube que era uma carta de despedida. Então, hoje eu picotei o conteúdo e espalhei dentro desses biscoitos. Tá tudo aqui. Tudo dentro desses biscoitos da sorte que hoje eu ofereço para os desconhecidos."


Lia ao telefone.
-Oi Gongão, foi você que me trouxe?
-Não???
-Ah, nada não... só queria tirar uma dúvida, então tá, a gente se vê mais tarde.
-Beijo.

Lia na Cinemateca, pergunta ao moço da portaria.
-Oi, acharam uma mochila ano retrasado, em setembro mais ou menos?
-Olha, isso já faz muito tempo, não acha não? Com certeza a mochila não está aqui, se a achamos, já deve ter tido um outro destino.
-Nossa, eu preciso tanto dela, preciso pra ir viajar...
-Mas moça, você já está sem ela faz mais de um ano e meio!
-Pois é, é esquisito, mas preciso dela pra ir viajar mesmo, senão não dá.
-Ó, eu sinto muito moça, mas acho que não vou poder ajudar, faz muito tempo mesmo.

Lia no posto de gasolina da Cena Madureira, mesmas perguntas , mesmas respostas.

Lia no Empurra-empurra (monumento), Guto aparece:
-Desencana Liazona, vai sem ela.
-Não dá, Guteba, não consigo.
-Tá com medo de quê? Tem um monte de mochila que vai com a gente.
-Eu preciso guardar certas coisas que não cabem no bolso, as coisas que não cabem em mim...guardar na mochila, pra dar uma divididinha, sabe? A vergonha por exemplo, que me cerca, imagina ela toda só comigo...
-Puta Liazona, você não precisa de uma mochila. Deixa tudo aqui, ou quase tudo... é mais fácil sem tanta coisa pra carregar.
-Será?
-Sim, vai indo pros lados de casa que eu vou buscar a Bijourica. E olha a chuva heim, num tem um guarda-chuva no seu bolso, não, Bichinho?
-Pó deixa, eu amo a chuva.
-Vamo ATRAVESSAR, Liazona!

Lia tira do bolso um texto xerocado, dois maços de cigarro vazios, uns papéis, procura um lixo e vai embora sorrindo.

terça-feira, 20 de abril de 2010

"Um Convite" - Cena de Apresentação de Tom

1. INT. / DIA - BAR DO BIRO - ENTARDECER

A câmera registra detalhes do Bar do Biro quase vazio num
final de tarde: A mesa de sinuca tosca, um frequentador no
balcão, o Gazeta Esportiva na TV, o Biro cortando um
salame, as pinturas na parede.
Ela então olha para fora e vê por entre as grades Tom
chegando. Ele dá um último trago no cigarro e joga a
bituca fora, então entra no bar procurando alguém até que
olha para a câmera, sorri e vai até ela.

TOM
Demorei, né? Cê tá aí a muito
tempo?

Biro chega com um copo para Tom e com uma porção de
salame.
TOM
Ô Biro, valeu. Tudo certo? Tá
sorrindo à toa com o Santos,
hein?

BIRO

É rapaz... Qualquer coisa, tamo
às ordens.
TOM
Belê Biro, valeu.

Tom se serve de cerveja e completa o copo da outra pessoa
sentada com ele. Ele está um pouco nervoso, mas tenta
parecer tranqüilo.

TOM
Prazer em dar prazer, o Biro tá
sempre sorrindo... E aí?

Tom encara a câmera e sorri.

TOM
Bom, a razão que eu te chamei
aqui é... Como dizer?

Dá um gole na cerveja.

TOM
Eu te chamei aqui para te fazer
um convite. O lance é que eu
adoro estar ao seu lado e quero
que isso aconteça mais vezes.
Quero que aconteça sempre.

Tom pára pra pensar. Dá um gole na cerveja, coça a cabeça.

TOM
Quando eu era pequeno e voltava
de um filme que eu gostava,
ficava brincando com meu irmão de
ser aqueles personagens. O lance
dos filmes que eu gosto é que tem
pessoas apaixonantes. Pessoas
apaixonantes vivendo vidas
apaixonantes. Bom, o motivo
porque eu te chamei aqui é esse.
Você é um tesão de pessoa com
tesão pela vida.

Dá outro gole. Deixa o nervosismo prolixo de lado, encara
a câmera sério.

TOM
Eu quero inventar uma vida pra
mim. E quero que você faça parte
dela, quero que a gente invente
junto.

Tom sorri.

TOM
E aí, bora se aventurar na
estrada?

Primeira Cena Bel

Int. Dentro do ônibus - Tarde

Através do vidro se vê a cidade de São Paulo: o trânsito das 5h da tarde que paralisa o tráfego.O ônibus está vazio, com apenas algumas pessoas dispersas e sentadas. Isabel está de pé. Com uma das mãos se segura no ônibus, com a outra coça, intercaladamente, o nariz, os olhos e a cabeça num ritmo acelerado, demonstrando impaciência e pressa. Seu olhar ora se perde no infinito, ora busca, do lado de fora da janela, um lugar familiar.

(Ouve-se o sinal do ônibus para parar. O dedo de Isabel está pressionando o botão incessantemente.)


Int. na cozinha da casa de Isabel - pôr do sol

Uma luz natural incide sobre o rosto de Isabel enquanto almoça lentamente. Entre uma garfada e outra, tica itens de uma folha de papel. Circula várias vezes tudo o que falta na lista e volta a comer, agora com a respiração mais tensa. Olha a comida restante no prato.

(Ouve-se a buzina de um carro lá fora.)


Levanta da cadeira atordoada

              ISABEL

Ai, Meu Deus... 

Foco em seu rosto. Isabel está com os olhos cerrados e um sorriso tímido vai nascendo.

(Som de papel sendo rasgado)

Cena de apresentação Guto

Interna – Casa do Guto / tarde.

Vemos as costas da cabeça de Guto apoiadas no sofá e a frente a televisão. O programa é Casos de Família com Cristina Rocha. Após alguns segundos de programa a câmera faz a volta e pega Guto de frente prostrado no sofá de calça de moletom, cara amassada, sem nenhum tipo de latência ou vivacidade no rosto, completamente apático. Há um cinzeiro no braço do sofá. Essa imagem permanece por alguns segundos.

Interna – Casa de show – noite.
É show da Trupe Chá De Boldo. Momento do show no qual Guto declama ardentemente o poema:
Me queimo
Ardo
Me inflamo quando me atiro vivo em tuas veias
Seivas
Suores
Teu corpo
Um rio de fogo em que me afogo sem pedir socorro a ninguém
Tua língua
Saliva
Labareda que me percorre por dentro, por fora, à margem
Até minha carne viva encontrar a tua carne em flor
E finalmente eu for
Um rio
Um rio dentro do teu mar

Outro momento do show: Guto cantando a música Eu Não Presto: “...quando eu subo no palco eu mato a cobra e mostro o pau...” Em ambos os momentos sua sensualidade, vivacidade, tesão e liberdade sobre o palco fica explícito. (não pensei na edição para que não precise mostrar os dois momentos inteiros, acho que era legal intercalar com as pessoas dançando na pista também, o barulho e o escuro da balada, sei lá...).

Interna – Casa do Guto / madrugada

Vemos Guto prostrado no sofá. Com uma mão zapeia os canais da televisão (além da imagem isso fica claro com o áudio) e com a outra fuma. A cena permanece por segundos.

Interna / Quarto do Guto / manhã

Guto, acelerado, ansioso, com o coração batendo de pressa colocando as últimas coisas na mala. Foco para última coisa que é o figurino do personagem Tobias. Já pronto liga para o Tom:

Zezé!
Zezé é hoje!
To lógico. Eu vou pegar a Bijou, a Lia, o Galo e a Bel e logo mais tamo aí Muteminhaaa!
Sabe que eu queria saber? (procurando uma caneta) Como é exatamente a frase do Guimarães?

Vemos Guto escrevendo na parede de seu quarto: “Vida devia ser como na sala do teatro, cada um inteiro, fazendo com forte gosto seu papel, desempenho. Era o que eu acho, é o que eu achava.”.

Um propósito

"O propósito que o guiava não era impossível, ainda que sobrenatural. Queria sonhar um homem: queria sonhá-lo com integridade minuciosa e impo-lo à realidade."

Jorge Luís Borges - Ficções

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Gomgom por Bel

É Bríncadêra. 
Já foi rascunho, papel amassado, unhas ruídas e eu não sei porque é tão difícil falar assim do Gomgom. Talvez porque só agora eu tenha reconhecido o revés dessa figura e queira falar sobre ela. Mas daí penso que não devo ter sacado nem a metade.
Agora, depois da bebedeira em Camburi, de alguns carnavais fora de hora. Agora, depois de ter dormido encolhidinha no sofá da sua casa, de ter rido com você locão aqui na minha casa dublando as pessoas através do vidro. Agora, que te reconheço sóbrio. Agora, que te vejo articulado com as palavras, dando rodeios no mesmo assunto sem fazer a gente perceber. Um homem sério? Não, não é pra tanto, mas não é só o cara engraçadão da turma. 

Que ele tem uma coisa de ser gostado em unanimidade numa fração de segundos, eu não tenho dúvida. O gomgom tem um carisma que te envolve. Ele é sim cheio da graça e coleciona todo o repertório trash da cultura pop. Guenta até o fim da balada, aliás, é com ele que o sangue ferve na trupe.
A monotonia pode até ser interessante, mas ele gosta mesmo é do calor de gente reunida. Olha, acho que se apertar bem, cabe todo mundo no colchão da Nasa, hein. Daí maravilha. É só ligar no Larica Total.

(ele nem sabe, mas aquele dia no parque é que me convenceu em fazer o filme)

É, Gomgom, 
foi, desde o início, almejo à primeira vista. 

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Duas faces de Bel

Bel pactária:

http://www.youtube.com/watch?v=iWqR5d61T0Y

Elisa:

Parte 1 - http://www.youtube.com/watch?v=l8s6gejRV48
Parte 2 - http://www.youtube.com/watch?v=lJk9jiuRwQY

terça-feira, 13 de abril de 2010

Valdeci

Valdeci. A descrição do personagem criado por Pedro Gongom está no youtube:

http://www.youtube.com/watch?v=-_kTRg8-PmY

Gongão por Liazona na primeira pessoa

Eu canto em falsete na ponte aérea Fartura(Rancho)-Vegas.
Nutro-me das risadas ao meu redor e gosto de produzí-las. Sou muito bom nisso e quase incansável.
Faço graça do meu sofrimento, e quando não acontece guardo-o só pra mim. Porra, todo mundo sofre.
Sou mesmo engraçadão e vejo-me como são mesmo em momentos de maior loucura. Eu acho que os outros não me vêem em outros lugares que não os meus, mas eu assim me vejo quando quero. Gosto de participar, disso preciso.
Consigo ver em todos um lado bom e legal, consigo ver o que nem todos vêem, vejo longe, mas gosto de ficar por perto.
Conheço muito bem os mundos ao meu redor e passeio com tranquilidade e naturalidade por todos eles.
Tenho muitos amigos, incontáveis, variáveis, mas amigos e é isso que me importa.
Acabo de assistir SuperPop e em algumas horas passo no estúdio, no Genésio e porque não começar o dia emendando a noite na sinucona do Largo da Batata. Gosto de companhia pra isso tudo, ficar sozinho é um pouco entediante.
Amo muito, mas não faço questão de ficar declarando-o o tempo todo.
Sou dado e misterioso.
Sei me vestir muito bem e trago um charme praticamente irresistível, encanto e conquisto. Adoro!
Sou branco leite, familia ritualizo, cozinho, rio, faço rir, toco bateria, leio sim.
Fiz Sociais mas Licenciatura nem fudendo, sou Bacharel e tá bom.
Pedro Gongom, muito prazer.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Noel

Noel está online:

Noel, sua mulher, seus sete filhos, suas três noras, seus dois cachorros, dois gatos e as suas duas cacatuas.

Parte 1: http://www.youtube.com/watch?v=X3regoA9-7c

Parte 2: http://www.youtube.com/watch?v=P5Eox1UXF7w

nome

e se fosse Travessias ?

terça-feira, 6 de abril de 2010

domingo, 4 de abril de 2010

Eu por mim mesma, na 3º pessoa. (Isabel)

Contaminada pelo passional-racional - daí muito do que fortalece suas contradições. É de admirar o vai-e-vem do mar incansavelmente. Suspeita-se que seja filha de Yemanjá. Acha graça nas pessoas. Confusa, prolixa, o pensamento não corta a língua com precisão. Só acredita no amor. E ama. Inflama. Derrama. Sofre de maleabilidade. O bicho tempo costuma comer sua vida e, quando percebe, já passou. Queria o tempo elástico! Ansiosa e lenta. É doce, mas gosta do humor ácido. A auto-crítica te paralisa. Às vezes muito dura consigo mesma. Perfeccionista. Precisa tomar florais pra fazer florescer coragem. Sempre acha que fez pouco, mas prefere o muito. Teme a solidão. Teme bastante coisa, na verdade. Tem siricuticos. Tique-tique nervoso que se desarma em chororô e logo logo num sorriso líquido.

Elisa

Família daquelas que chamam tradicional, católica fervorosa, hipócrita. Elisa - 18 anos, mineira de pai, mãe e nascença. Da religião ela entendia, tinha feito com gosto e destreza o trabalho de primeira comunhão aos 7. Era o xodó da mãe. Eram em 5 irmãos. Elisa, a terceira. Do mar pouco conhecia além dos fins de semana cinzentos com cheiro de óleo na costa do Espírito Santo, mas conseguia imaginar a maravilha da imensidão azul por um conto uruguaio que um amigo lhe mostrara. A imagem do menino que vira o mar pela primeira vez junto ao pai contaminava Elisa de tal modo, que a delicadeza daquela estória agora lhe pertencia. Elisa era virgem dos olhos do mar.
A infância foi marcada pelas férias na fazenda do tio avô - que mais tarde haveria de ser perdida pras jogatinas masculinas. Era primaiada por todo o canto. O pai, severo, em plena atividade patriarcal. Coisa que Elisa condenava sem saber bem o porquê, mas que sob o consentimento dos olhos apaixonados da mãe, teria de aceitar.
Naquele tempo havia amor entre os pais. A mãe não tinha adoecido. A família não sufocava. Tudo parecia caber na compreensão-de-menina de Elisa. Parecia leve...

Daí veio a separação, a morte, o colégio interno. Os irmãos dispersos, o fim da fazenda e da infância.
Não tinha mais os beijinhos açucarados da mãe.
Tinha era uma alma solta, confusa, que vagava nas sacristias geladas em busca de um acontecimento.

Assim formou-se a vontade da independência, a curiosidade que transbordava dos livros, a coragem que se firmava numa menina de mãos atadas, presença forte.
Elisa queria descobrir os desejos. A pele queria colar em outra pele, o coração queria pulsar mais forte, os olhos precisavam abraçar o mundo - e, certamente, não daria pra esperar os quase distantes 18 anos.
A feminilidade nascia espontaneamente naquele corpinho miúdo. O bico do peito já deformava a camiseta do uniforme branco exigido pelas freiras, a respiração palpitava. Os poros se abriam para fazer expandir a erupção de dentro de Elisa.
O corpo, num sobressalto, aqueceu as paredes mofadas da capela principal. Era vapor pra todo lado. Então o sino bateu e a porta do colégio interno se abriu. Não tinha ninguém esperando por ela, nem família, nem fazenda, nem conto uruguaio.
Só o vento.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Do Grande Sertão, disse Riobaldo:

"Queria entender do medo e da coragem, e da gã que empurra a gente para fazer tantos atos, dar corpo ao suceder. O que induz a gente para más ações estranhas, é que a gente está pertinho do que é nosso, por direito, e não sabe, não sabe, não sabe!"
e mais
"Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da Travessia"

Porque faz tempo que ninguém coloca nada aqui e porque acabei o livro.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Isabel por Gongom

Daí que a bel tem uma coisa de passarinha que é muito claro na minha cabeça e no jeito que eu imagino ela quando eu paro pra escrever essas descrições de filme sabe? Ela é pequena e dá vontade de cuidar e de proteger ela das coisas, da chuva, dos raios e das situações desconfortáveis da vida. Mas isso é uma isabel conceito, meio antiga, isso é irmã da helena, é amiga das namoradas do pessoal da banda, isso tudo é aquela menina engraçada e não exatamente sóbria que eu adorei quando eu conheci, isso é bobagem.

To vendo e não é de hoje que vem uma outra por aí. Aliás, já ta começando a passar, ó.

Tem um monte de coisa nova na isabel que eu nunca tinha visto, metade porque até então eu não tinha olhado direito e metade porque essas coisas são novas mesmo, coisa nova que nem ela sabe que tem. Precisa ter coragem pra entrar nessas, ainda mais assim, sem lenço.

Frescor juvenil titubeante, todas as possibilidades pela frente, frios na barriga e um mundo atrás da porta igual ao da elisa, iguaizinhas.

A gente é o seu mundo bel, vem.

Galo por Gongom

Os anarquismos, o violão, o violão, os anarquismos. É, são importantes. Eu adoraria dizer que isso é tudo bobagem, só pra ver ele descontoladão, empinando o queixo retrátil, levantando a voz, gesticulando com o nariz vermelho e enfiando o braço inteiro na sua ferida. (adoro o galo puto, é pior que o Marcão dando entrevista depois de goleada em casa), mas eu reconheço o quanto essas coisas fazem dele quem ele é. Pra quem vê o gustavo sentado na cantina do judeu, tomando café doce pra cacete, lendo algum livro da editora 34, de all star roubado e calça branca, pode parecer que é só isso mesmo. Mas o mais legal do gustavo é o deslumbre e é nele que ele se desarma.

O galo é um puta deslumbradão, no melhor sentido da coisa. A gente senta, bebe dois fernêsss e ele começa a viajar, a especular um monte de coisas sobre o futuro, sobre os projetos, a banda, o filme, a peça, o ensaio, o apartamento, tudo. Vira um bobalhão encantado com as coisas do mundo, com a vida, com as possibilidades, com todo monte de gente maluca que a gente sempre conhece junto. Ceis percebem que ele vai virando um pouco as pessoas que ele gosta? Genial essa mistura de reverência e referência que ele faz.
Acho muito gostoso conviver com esse galo que tem coragem de abaixar a guarda. Tenho certeza que é por isso que ele vê um monte de coisa que eu só percebo depois, quando ele canta.
Galinho... eu nem lembrava mais que no começo era galinho... Não foi o guto que inventou esse apelido. Ele me lembra o zico: a batata da perna e o jeito de olhar são quase os mesmos.


Acho que é por isso que eu não paro de pagar nem os choppes nem as ligações telefônicas.

Eu por Mim. (Gongom)

-E aí, vai fazer logo ou não?

Vou calma to terminando de pensar um negócio aqui...Já sei! Entendi tudo.

Eu to desarrumando tempo pra fazer essa auto descrição faz tempo já. Eu to ocupado ultimamente, de verdade, to com um impulso novo de coisas pra fazer, de dormir menos, de ir mais direto de um lugar pro outro, sem parar.

E é um saco ter que ficar provando pra todo mundo isso, ao mesmo tempo que eu não paro de me enganar com absolutamente tudo o que eu faço. Tem gente que não sabe mesmo do sentido das coisas que faz, eu sei muito bem e crio outros super lógicos pra contrabalancear. Ah, eu faço muito isso que eu acabei de fazer, começo uma coisa e não termino nunca porque ela sempre vira outra no meio e vai indo sem parar para o alto e avante.

-Tá, ficou legal até agora, meio sério meio engraçado, meio espertinho, mas avança de uma vez porque você fica falando a mesma coisa e não sai do lugar e tem gente que não tem paciência pra ler tudo e vai pular esse parágrafo.

Bom, voltando ao ponto, eu odeio ter que me confrontar comigo mesmo, ter que decidir:

- Crise Existencial, esse é o Pedro. Lembra que eu disse que queria apresentar vocês?

Sempre achei que vocês iam se dar bem...

Calma! Tá, aí tem essas coisas que de tanto todo mundo falar, você para pra pensar sobre você e se convence de que você é realmente muito isso, e que não é a toa que todo mundo fala. Tipo que eu sou engraçadão e que eu sei muito sobre umas coisas absolutamente desimportantes tipo televisão, cultura pop, sub-celebridades, comida, bebida, ar condicionado, conforto, estar fora de forma, não pegar cor, auto medicação e hipocondrismo, estados unidos, bateria, drogas, vídeo game, música eletrônica e reality shows. Mas cara, eu tenho essa coisa ponderativa Cléber Machado que o galo fala, pra mim é fácil botar uns panos quentes e por isso, mais ou menos do mesmo jeito que a lia, eu gosto de verdade de quase (quase mesmo) todomundo. Aí que eu tenho um monte de grupos de amigos e em cada um eu sou muiiito diferente e assumo outro papel: tem o pedro o ph o gongom o peu o pedro henrique. Juro que eu sou o hippie dentro de outros círculos sociais, dá pra acreditar?

-Ah vá, todo mundo é assim, você se acha e não entende que o denominador comum é que é você de verdade.

Eu sei, mas eu tenho essa coisa de querer ser diferentão e não me constrage assim na frente deles.

- Mal.

Pô, me perdi aqui... Ah, sérias dificuldades para dizer não. Eu não tenho a mais parca idéia da hora exata de parar, só a possibilidade de existir alguém fazendo alguma coisa mais ou menos legal sem mim me assombra. Aí eu lavo o rosto e vou. é isso, e eu sou barbudo, confuso, tímido, expansivo e o mais sóbrio dos malucos.

- Ainda tá faltando coisa, mas deixa no ar que é legal.