
Ontem, domingo 09 de maio, vários de nós do Travessia fomos ver Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo.
Opiniões divergentes à parte, o filme de Karim Aïnouz e Marcelo Gomes suscitou diversas questões que se relacionam com o nosso.
'Viajo porque preciso'. À primeira vista, ao menos para mim, tal sentença remetia ao viajar como um necessidade em si. O que vemos no filme no entanto é que a frase está mais relacionada, ao menos em sua origem caminhoneira, à viagem como uma obrigação profissional. É claro que no final das contas o título pressupõe uma certa ambiguidade: precisar para trabalhar, mas para mudar, para esquecer, para se encontrar. Título muito feliz.
E porque nós viajamos então? A princípio pela aventura, porque queremos, queremos outros mundos, outros ares, outras pessoas. Eis minha resposta automática: viajo porque quero. Mas, parando para pensar um pouco, porque voltamos? Não seriam os motivos que nos fazem viajar suficientes para não voltarmos? Em outras palavras: o que nos prende à São Paulo com tanta força que nos leva a ir já pensando na volta? Nossas vidas estão aqui. Sim, mas não é justamente as rudezas desta vida que nos levam a precisar viajar?
Viajo porque preciso. Preciso descansar, descansar para poder continuar a viver no ritmo que a cidade exige. Seria então a minha necessidade de aventura uma vontade programada para dar conta de uma vida desgastante?
Viajaremos. Porque precisamos e queremos. Talvez nem todos voltem. Talvez muito de São Paulo que está em nós viaje com a gente.
Este post acabou por ganhar um tom muito pessoal, por isso convido à todos a pensarem e escreverem aqui sobre essas questões.
***
Uma outra questão que o filme de Aïnouz e Gomes me levou a pensar (sempre em contraponto ao nosso) é o da linguagem e a relação que esta promove entre o espectador, o espaço e as pessoas no filme.
De certa forma, da maneira como o filme é construído, principalmente pelas vozes over, os planos gerais, os diversos tipos de suporte (me falta palavra melhor, leia-se o digital, o super-8, as fotos...) e a ausência de ações dramáticas, leva o filme a uma espécie de registro 'lírico-reflexivo' que conduz o espectador a ver tudo o que está na tela pela mediação do protagonista e suas câmeras.

Bom, é certo que tudo o que vemos no cinema é mediado pelos seus autores e suas câmeras. Não tenho dúvidas quanto à isso. O que me incomoda no Viajo por que preciso... é que isso acaba, ao meu ver, a minar as possibilidades de que a o mundo e a vida filmada surpreendam o espectador, pois está tudo dentro do controle desta mediação, quase não há acontecimentos que fujam do olhar como objeto e este dê lugar ao que olha.
Sinto que deposito expectativas minhas quanto ao nosso filme no filme do outro, mas se há um lugar em que isso pode ser feito, o lugar é esse blog.
Haverão sim momentos 'líricos-reflexivos' no nosso Travessia, o espectador verá e ouvirá o mundo pelo ponto de vista de atores construídos a partir de imagens subjetivas / subjetivadas, pelos sons de suas vozes lendo seus diários e impressões da estrada. Mas estes momentos então darão lugar a cenas, documentais ou encenadas. O que foi então abordado com a certeza das palavras será relativizado, potencializado, problematizado, pela incerteza, complexidade e ambiguidade que só uma cena pode conter. Drama. É claro que haverá sempre a mediação, mas esta estará sujeita à surpresa do tom e da palavra de um ator, do gesto de um desconhecido, da imprevisibilidade da vida, enfim, à tudo de inesperado que uma cena, encenada ou documentada possa conter e que enriqueça um ponto de vista e suas infinitas possibilidades de interpretação.
Sinto que deposito expectativas minhas quanto ao nosso filme no filme do outro, mas se há um lugar em que isso pode ser feito, o lugar é esse blog.
Haverão sim momentos 'líricos-reflexivos' no nosso Travessia, o espectador verá e ouvirá o mundo pelo ponto de vista de atores construídos a partir de imagens subjetivas / subjetivadas, pelos sons de suas vozes lendo seus diários e impressões da estrada. Mas estes momentos então darão lugar a cenas, documentais ou encenadas. O que foi então abordado com a certeza das palavras será relativizado, potencializado, problematizado, pela incerteza, complexidade e ambiguidade que só uma cena pode conter. Drama. É claro que haverá sempre a mediação, mas esta estará sujeita à surpresa do tom e da palavra de um ator, do gesto de um desconhecido, da imprevisibilidade da vida, enfim, à tudo de inesperado que uma cena, encenada ou documentada possa conter e que enriqueça um ponto de vista e suas infinitas possibilidades de interpretação.
